19 fevereiro 2011

JOSÉ

    E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? 
    Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? 
    E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora? 
    Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse... Mas você não morre, você é duro, José! 
    Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde? 
    Drummond


    2 comentários:

    1. E agora Gustavo?Qual será o seu próximo post?
      Seria filosófico?Dramático?Romantico?Rsrs

      Quase ninguem sabe, só tu sabes!

      Gostei do post.

      Um abraço!

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    2. Talvez vocês não imagine como o seu comentário foi de grande ajuda a minha inspiração e mostrou que consigo falar sobre muitas coisas através da poesia.

      Estou sem palavras para agradecer...

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