17 agosto 2011

.: SUPLEMENTO :.

ESPELHO

Todos deviam estavam dormindo. Mas cadê que ele tirava pelo menos um cochilo, pra me deixar em paz... Paz? Nem com rivotril, diazepan. Pelo menos enquanto esse safado estivesse no controle. Ah!... algumas páginas depois... Ele, com seu cheiro, sua língua, seu olhar me fuçando, e suas mãos e pernas e dentes e boca, e exausto. Só de lembrar, me desviro, me molho, me cavo. Socorro! Um mogadon! Preciso sumir por uns capítulos. Senão me acabo. E ele, agora, só me observando. Tem vouyeur de todo tipo. Mas esse é foda, literalmente. E vale por dois, três, sei lá, já perdi a conta. Porque, quando a gente pensa que ele arriou, aparece outro, e outro, e outro personagem – ou persona? E o fogo morro acima, engolindo, caniveteando – pra doer mesmo, ele diz – e outra vez subindo, consumindo, que nem rescaldo que ninguém consegue apagar. Depois, a puta sou eu, que não tenho culpa de ter nascido ás três da manhã, no meio de um monólogo interior (que dizem que é o que acontece quando a gente conversa sozinha, fala, desfala, e ninguém chama de doida), numa história sem pé nem cabeça – mas com muita sacanagem. Pelo menos todas as que pudermos imaginar, os todopoderosos de todas as páginas – autor, escritor, narrador, contista, poeta, personagem e, mais que todos juntos, você e sua quimera, sua cabeça de leão, seu corpo de cabra, sua cauda de serpente, suas narinas de fogo e seu desejo inconfesso e incontido, meu caro leitor.
Dagmar Braga


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